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#15 09-06-2020 

Notas sobre vida académica, inovação nos media e indústrias criativas, inspiradas nas 164 "listas de coisas" que Sei Shōnagon partilhou em The Pillow Book (Séc. XI). 
 
Nesta semana, fala-se de intolerância inconsciente na universidade, do pesadelo americano e do (bom) jornalismo de Sibila Lind.
Things that give an unclean feeling  

Someone who is late in washing his hands in the morning.
A person who does not bathe for a long time even thought the weather is hot.

(Sei Shōnagon’s Lists, The Pillow Book)

_COISAS DA VIDA ACADÉMICA

#1 Nas universidades também há intolerância inconsciente. Nos últimos dias, as manifestações contra o racismo reavivaram o debate sobre o preconceito e a intolerância para com o outro. Infelizmente, o racismo e a xenofobia não são performances pontuais. São estruturais, isto é, estão de tal forma enraizadas nas instituições e no nosso quotidiano que só quando as desconstruímos é que nos apercebemos delas. Dou-vos um exemplo da academia: nesta altura de candidaturas a cursos universitários (excluindo as licenciaturas), reina, por vezes, o receio entre os estudantes portugueses: receio de que os candidatos brasileiros, dos PALOP ou de outro sítio qualquer lhes tirem as vagas (que sentem ser deles por direito). A verdade é esta: sim, esses candidatos vão tirar-lhes as vagas, se tiverem mais mérito do que os portugueses nos critérios de seleção. Outra verdade incontestável: há candidatos portugueses excelentes, bons, médios e medíocres; também há candidatos de outros países excelentes, bons, médios e medíocres. Outra constatação: pela minha experiência, as turmas mais produtivas e interessantes são aquelas que têm estudantes de Lisboa, do Porto, de Unhais, de Portimão, de São Paulo, de Rio Grande, acabadinhos de sair da licenciatura, profissionais com uma longa carreira e por aí fora. A partilha de experiências e a diversidade cultural e social são das coisas mais importantes na academia (por isso é que as aulas presenciais fazem a diferença). Os estudantes brasileiros, em particular, ensinam-me muito. E posso dizer, sem sombra de dúvida, de que nutro por alguns verdadeira amizade. Isto, sim, também é ser privilegiada.



 

_COISAS DOS MEDIA

#1 A população negra está a morrer quase duas vezes mais do que a média total nos respetivos estados dos EUA. O projeto inovador The Covid Racial Data Tracker resulta de uma parceria entre o The Atlantic e o Antiracist Research & Policy Center e quer reunir o maior conjunto de dados sobre a Covid-19 por etnia e raça.

#2 “Either there is something superior or inferior about the races, something dangerous and deathly about black people, and black people are the American nightmare; or there is something wrong with society, something dangerous and deathly about racist policy, and black people are experiencing the American nightmare". Este artigo é um murro no estômago.

_COISAS DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS

#1 O futuro da experiência blackness no ecrã. O portal de vídeo-arte Nowness tem uma série especial dedicada ao futuro dos atores negros. Chama-se "Blackstar" e conta as histórias de Mila AdderleyArnold Oceng e Leah Harvey, e Sun Ra

#2 O Google Arts & Culture reuniu registos fotográficos sobre o início da Marcha do Orgulho da comunidade LGBTI+ nos EUA (anos de 1970). Em Portugal, a primeira decorreria em 2000.

 

_COISAS DE CRIADORES: SIBILA LIND

Tem nome de romance e de profetisas da Antiguidade Clássica - um prelúdio de uma carreira que acabou por passar pela arte de contar histórias reais.

Acabaste Belas-Artes e rumaste ao mestrado em Jornalismo. Querias dar uma dimensão artística ao jornalismo ou contar histórias através da arte?
Acho que foi um bocado dos dois. Mas a verdade é que estava cansada da arte, no sentido em que percebi que o que me interessava era mesmo a parte documental e real. Grande parte dos projetos que desenvolvi nas Belas Artes estava ligada a histórias reais, com pessoas que me eram próximas. O trabalho que fiz para a exposição final do curso foi sobre a minha avó e a sua relação com o quarto onde o meu avô fazia traduções de português para alemão e ela se sentava ao pé dele a ajudar. Por isso entrei para o mestrado em jornalismo na NOVA FCSH, quando percebi que queria contar histórias e, se possível, dar-lhes um olhar próprio. 
 
 
Afirmas que estás na linha entre a arte e o jornalismo. Está a tornar-se mais ténue esta fronteira?
Acredito que existe muitas semelhanças entre os dois. Especialmente depois do aparecimento da Internet e da multimédia. Quando entrei para o Público, em 2015, o primeiro trabalho do qual fiz parte foi para comemorar o 25.° aniversário do jornal. O tema dessa edição era o "tempo" e surgiu a ideia de fazer 1440 vídeos de um minuto (que ao todo corresponde a 24h) para fazer o retrato de um dia normal. Andámos por Portugal fora a filmar tanto momentos banais (um sapateiro a trabalhar, um almoço de família, um homem à beira mar...) como momentos mais particulares (uma operação no Hospital dos Lusíadas, os bastidores de um concerto do António Zambujo, a gravação de uma telenovela...). E esse projeto marcou-me bastante. Foi publicado no site do jornal, mas poderia também ser exibido num museu ou até numa sala de cinema (o que acabou por acontecer). E são estes trabalhos que me dão gozo fazer, assim como o documentário que realizei sobre o ceramista português Querubim Lapa, também para o jornal Público. O filme foi projetado na Culturgest, no âmbito do festival de cinema DocLisboa. No final, houve pessoas que perguntaram: "Mas isto é jornalismo?" "O jornal faz documentários?". Porque não? O papel do jornalista é olhar para a realidade e informar. O conteúdo do jornalismo assenta nos fatos, mas podemos sempre reinventar a sua forma e explorar vários formatos multimédia. O problema é que este tipo de conteúdos exige um certo investimento - tanto de tempo como de recursos humanos - do qual nem todas as redações dispõem ou nem sempre é prioritário. 
 
Já recebeste vários prémios, desde a Gazeta Revelação, com “Anatomia de uma Ópera”, ao Prémio de Diretos Humanos e Integração da Unesco, com “O mundo de Jó”. Que histórias contam estas reportagens?
Sobretudo histórias de pessoas. Acredito que para uma história chegar a alguém é muito importante humanizá-la. E por isso, durante uma entrevista, temos de encontrar na pessoa sensações, sentimentos e experiências com as quais os leitores e espectadores se consigam identificar. Desta forma, um tema que poderá ser indiferente para essa pessoa tem mais probabilidades de se tornar relevante.
 
Entregas-te completamente às histórias que contas - o documentário de Querubim Lapa, que mencionaste há pouco, é prova disso.  Quais foram até agora as que exigiram mais de ti?
Um dos maiores desafios que sinto enquanto jornalista multimédia é conseguir criar intimidade com a pessoa quando tenho uma câmara apontada à sua cara. Não é fácil. Mas, quando conseguimos, é extraordinário. Tive vários projetos grandes que exigiram bastante de mim, mas também das pessoas que acompanhei. É um compromisso de duas partes. E tive a sorte de elas terem confiado em mim e se terem disponibilizado a expor a sua intimidade. Foi o caso da Jó ("O mundo de Jó"), do Querubim e da Susana ("Como se não existisse nada"), do Zeca e do Vítor e das vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande ("Eis que fazem novas todas as coisas") e do Claude ("A vida de Claude"). Talvez, no meio destes trabalhos todos, aquele que – não diria exigiu mais de mim mas que mais me marcou - foi o documentário sobre o Querubim e a Susana, porque foi o primeiro documentário de longa duração que realizei. Durante oito meses acompanhei o seu dia-a-dia e acabámos por criar uma forte relação pessoal. Eu já não era uma estranha na vida deles. No final a Susana já me chamava a sua “filha adoptiva”. Infelizmente, o Querubim morreu sem ver o filme. 
 
Saíste do jornal Público para rumar ao projeto Contacto, no Luxemburgo. Estás feliz? 
 O Público permitiu-me descobrir o meu caminho. Tive espaço para criar e experimentar – várias vezes enchia a secretária com recortes, desenhos e maquetes de cenários para ilustrar os vídeos. E trabalhei com a melhor equipa multimédia que já conheci. Durante os três anos e meio que lá estive recebi as ferramentas necessárias para me sentir preparada para aceitar um novo desafio: mudar para um jornal noutro país. Também é preciso dizer que o salário foi um dos factores que influenciaram esta mudança. Em Portugal não conseguia ter a minha independência. Ainda assim, não foi fácil mudar de país, acho que nunca é. No início fui viver para um quarto e não conhecia ninguém. E o meu francês era muito básico – e o luxemburguês inexistente. Mas sair do meu espaço de conforto foi bom. E, um ano depois de aqui estar, o trabalho multimédia que fiz com a jornalista Paula Telo Alves sobre a vida de um sem-abrigo no Luxemburgo recebeu o prémio da Amnistia Internacional. E isso deu-me força para continuar. Em março decidi sair do Contacto para fazer parte da equipa multimédia do Luxemburger Wort, o maior e o mais antigo jornal do país. Sou feliz? Não sei dizer. Há quase meio ano que não vejo os meus pais, os meus irmãos, o meu avô e os meus amigos. A vida em confinamento é capaz de não estar muito longe da vida de imigrante – não podemos ver quem mais gostamos quando nos apetece. Mas pela primeira vez consigo pagar a renda de uma casa sozinha e nunca viajei tanto como no último ano. Ganhei uma estabilidade financeira que não tinha e um grupo de amigos próximos que se tornaram a minha família. Não tenho o mar ou o sol de Portugal, mas tenho o rio, imensas paisagens verdes e, quando bate a saudade, em cada canto há uma mercearia ou um restaurante português com minis, tremoços e um bom bacalhau à portuguesa.
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