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#6 20-03-2020 
Notas semanais sobre vida académica, inovação nos media e indústrias criativas, inspiradas nas 164 "listas de coisas" que Sei Shōnagon partilhou no The Pillow Book (Séc. XI). 
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Infuriating Things 

A guest who arrives when you have something urgent to do, and stays talking for ages. (...)
A very ordinary person, who beams inanely as she prattles on and on.(...)
Some newcomer steps in and starts interfering and lecturing the old hands as if she knows it all. This is quite infuriating.

(Sei Shōnagon’s Lists, The Pillow Book)

_COISAS DA VIDA ACADÉMICA

#1 Na semana passada, disse que não tinha muitas expetativas em relação às vídeo-aulas e que o faria apenas para não quebrar o ritmo das aulas. Estava enganada. Os alunos precisam de normalidade e de um rosto (mesmo à distância). As vídeo-aulas e as videoconferências para tirar dúvidas têm sido uma boa experiência. . 

#2 É necessário combater a visão apocalíptica de que a tecnologia irá substituir os professores nas universidades e, consequentemente, o pensamento. Urge também desconstruir a ideia de que uma universidade que promove uma ligação ao mundo empresarial e à comunidade - sobretudo nas áreas das ciências sociais e humanas - está a abdicar da sua própria essência. Pelo contrário. 

 #2.1. A tecnologia só tem valor nas indústrias criativas pelo conteúdo que lhe está associado  - não é a tecnologia que importa, mas, sim, o conteúdo proporcionado por essa tecnologia (ninguém está preocupado em saber como o Whatsapp funciona, o valor advém do que a aplicação permite fazer). Na universidade, acontece o mesmo - a tecnologia facilita e enriquece o processo de aprendizagem, de criação de conteúdos e de partilha. Nunca substituirá um professor, nem que seja aquele que se senta e está duas horas a "debitar" matéria. Pode não ser o mais cativante do mundo, mas houve, pelo menos, um exercício de curadoria de conteúdos e de sistematização de visões que não pode ser substituído por algoritmos. 

 #2.2.  A ligação ao mercado e à sociedade pode ser muito positiva, se bem feita. O objetivo de uma universidade (citando o Professor Francisco Caramelo, diretor da minha faculdade, a NOVA FCSH) é "promover a liberdade de pensar e a reflexão crítica, atitudes fundamentais na formação do cidadão informado, responsável e preparado para o exercício das suas atividades profissionais e para a complexidade e dinâmica das sociedades". É este cidadão que queremos nas empresas e nas organizações, não é? E não para se subjugar à "lógica empresarial" (expressão muito usada por pensadores que, ironicamente, nunca estiveram no mercado), mas para a melhorar. O tecido empresarial português tem muitas fragilidades e uma delas é precisamente o seu patronato nem sempre ter os valores apontados (liberdade, capacidade crítica, reflexão e competências) com formação universitária ou não.

_COISAS DA INOVAÇÃO CRIATIVA

#1 No dia 18 de março, escrevi um artigo para o Diário de Notícias sobre a forma como o vírus já tinha contagiado os museus. No final, aludi à secção "arts & culture experiments" do projeto Google Arts & Culture, mas agora tenho a oportunidade de vos mostrar duas dessas experiências inovadoras.

#1.1. Runway Palette 
Este projeto permite descobrir a paleta de cores que designers de moda usaram nas suas coleções (na fotografia em cima). Foi feito por Cyril Diagne, o Google Arts & Culture Lab em parceria com a revista The Business of Fashion.

 
#1.2. PoemPortraits
Este projeto cruza poesia, design e "machine learning". O leitor pode doar uma palavra à sua escolha que é automaticamente incorporada num poema colaborativo. Foi desenvolvido por Es Devlin, Ross Goodwin, IYOIYO e Google Arts & Culture. 

_COISAS DO VÍRUS

#1 Wuhan é a cidade protagonista da série "Portrait of a Place", disponível na plataforma de vídeo-arte Nowness. Os planos filmados com drone mostram uma cidade vazia, mas a classe criativa está a encontrar forma de reagir (leiam o texto abaixo do vídeo). 

#2 O relato de JB Nicholas, um fotojornalista afetado pela Covid-19, é impressionante, não pelo texto em si, mas pela forma como retrata a sua precariedade. É  um freelancer que é infetado e por isso se torna nómada (ou sem-abrigo).

 

_COISAS DE CRIADORES: PATRÍCIA VALINHO

Ficou no coração do país, em 2012, quando decidiu construir Uma Casa Portuguesa, ideia nascida das saudades que teve dos produtos locais durante a sua estadia em Londres, ao serviço da startup Ydreams. Agora, a Patrícia Valinho lançou outro projeto, também ele 100% português.


A ideia para o projeto Dedal.
Dedal significa Desenvolvimento Das Actividades Locais. Nasceu para valorizar o talento português e potenciar a inovação da capacidade produtiva nacional. O dedal também é o utensílio que protege as mãos (que sabem e fazem). Queremos ser facilitadores entre designers, produtores e o mercado global. A ideia  nasceu em 2009 no âmbito de uma pós-graduação no INDEG (ISCTE) «Gestão e Empreendedorismo Cultural e Criativo». Na cadeira de Empreendedorismo (lecionada pelo Prof. Rui Ferreira) desenvolvi o conceito: desafiar os jovens designers de produto que todos os anos ingressam no ensino superior e que têm parcas oportunidades de empregabilidade. Por outro lado, procurava também valorizar as técnicas artesanais locais. Desde então a ideia evoluiu, adaptámos alguns conceitos para ganhar escala produtiva e passámos de projecto de negócio a empresa.


Um dedal para todos.
O que distingue a Dedal é a forma despretensiosa com que encaramos o design. Para nós é um instrumento para fazer bons objectos para todos, úteis e que transformem rotinas em momento memoráveis, especiais. Encaramos o designer como o maestro de boas soluções para objectos do dia-a-dia e não como um artista que cria uma obra de arte, de produção única ou limitada. Defendemos o design para todos e não apenas para uma elite.

Criadora ou empreendedora?
As duas coisas. Por um lado, envolvo-me muito na parte da pré-produção. Há que encontrar a melhor solução produtiva e de uso para cada proposta de objecto. Além disso, a peça tem que ser justa em toda a cadeia de fornecimento: do designer ao fornecedor e ao consumidor – é por isso que me envolvo muito nesta fase, para assegurar que os nossos pressupostos de equidade são cumpridos. Por outro, considero-me um canal de distribuição do trabalho dos vários designers que trabalham connosco. Somos uma editora que publica os seus objectos.


 
O que ficou de "Uma Casa Portuguesa", uma casa construída com produtos de origem nacional.
A defesa da produção nacional. Num mundo cada vez mais globalizado é importante manter e dinamizar a produção local. Prova disso é o terror que se vive agora nalgumas superfícies comerciais, com a escassez de alguns bens (porque eram importados de países afetados pelo coronavirus). É fundamental que todos nós percebamos o impacto que tem para a nossa economia a valorização do que se produz cá. Na Dedal só produzimos em Portugal. Até a matéria-prima que não é local é escolhida em função da proximidade: tudo o que não existe em Portugal vem da Europa. Quando não encontramos forma de produzir localmente, optamos por não produzir determinado produto.

O que falta.
A marcas como a nossa faltam a componente tecnológica ou turística já que era o dualismo em vigor junto dos investidores antes desta crise do Coronavirus. Ou melhor: faltam investidores que se preocupem com o como e não somente com os resultados imediatos. Negócios como o nosso têm uma rentabilidade mais lenta (mas real) e são muito poucos os investidores interessados neste modelo – o foco tem sido mais no retorno financeiro imediato (ou exponencial, como é o caso da tecnologia) e não também no impacto social positivo. Falta também uma política governamental de apoio às jovens empresas: proporcionalmente pagamos tantos impostos como as grandes empresas (por exemplo, encargos como a TSU); os apoios que costumam estar disponíveis através de associações sectoriais como por exemplo as participações colectivas em feiras internacionais chegam a demorar mais de 12 meses a chegar (o que ao nível da tesouraria é um desafio já que temos que fazer o investimento a 100%). Continua também a faltar a simplificação de processos. Apesar de estar muito melhor, ainda continua a existir a realidade “falta o papel > qual papel > o papel” (citando os Gato Fedorento).


A mudança de Lisboa para o Oeste.
Estamos a testar essa realidade há menos de 6 meses mas acredito que sim. Diria até que é a única solução face aos custos fixos na capital: o custo de vida tornou-se tão elevado que para jovens empresas como a nossa é mais saudável deslocalizar para o territórios de menor densidade. Estamos muito felizes no Oeste. Por um lado, estamos mais próximos da produção; por outro temos custos inferiores e podemos crescer a equipa (que também tem custos de vida mais baixos).
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