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#16 22-06-2020 

Nweletter sobre vida académica, inovação nos media e indústrias criativas, inspiradas nas 164 "listas de coisas" que Sei Shōnagon partilhou em The Pillow Book (Séc. XI). 
 
Nesta semana, fala-se do que é uma universidade, do Digital News Report, do Barómetro Gerador e das esculturas de Beatriz Horta Correia.
Infuriating Things

A guest who arrives when you have something urgent to do, and stays talking for ages.

(Sei Shōnagon’s Lists, The Pillow Book)

_COISAS DA VIDA ACADÉMICA

#1 Tenho recebido alguns e-mails no âmbito desta secção a perguntarem-me coisas sobre as universidades. Poderão parecer básicas, à partida, mas a verdade é que se me perguntarem como funciona um banco, eu também não sei responder. Nos próximos tempos, tentarei fazer uma radiografia à vida académica. Começando:

#1.1 Uma universidade (como a Universidade NOVA de Lisboa) é constituída por faculdades e institutos  superiores (chamam-se unidades orgânicas ou escolas) que, no geral, se organizam por áreas disciplinares. Por exemplo, a NOVA tem nove unidades orgânicas: a NOVA FCSH (ciências sociais, artes e humanidades); NOVA Medical School (ciências médicas), FCT NOVA (ciências exatas e tecnologias), NOVA Direito (ciências jurídicas), NOVA SBE (ciências económicas), NOVA IMS (ciências da informação), IHMT (higiene e medicina tropical), ITQB (tecnologia química e biológica) e a ENSP (saúde pública). Neste caso, estas unidades orgânicas estão espalhadas por vários campi na área metropolitana de Lisboa. 

#1.2 Esta estruturação depende da complexidade e da extensão de uma universidade: as mais pequenas não estão sequer divididas em faculdades ou institutos superiores. Quanto ao ensino superior politécnico, os institutos politécnicos estão divididos em escolas. Dependendo também da extensão, estas unidades podem estar todas juntas ou ocupar vários campi (como as da NOVA que se espalham pela Área Metropolitana de Lisboa).

 

_COISAS DOS MEDIA

#1 O Digital News Report 2020, da Reuters Institute for the Study of Journalism, já está cá fora. De todos os resultados, saliento três:
  • há mais leitores a pagar pelas notícias online (nos EUA e na Noruega, houve um crescimento de 20% e 42%, respetivamente); a qualidade do conteúdo é a razão mais apontada;
  • a newsletter está a crescer enquanto plataforma de envolvimento dos leitores (um em cada cinco leitores dos EUA lê uma newsletter, pelo menos uma vez por semana; para metade destes, a newsletter é a principal fonte de notícias);
  • em Portugal, os media online mais consultados são o Notícias ao Minuto, o Sapo e o Correio da Manhã; 80% dos inquiridos usam o online como primeira fonte de notícias (mas, pelo que os dados parecem dizer, para 58% destes, as redes sociais são a principal fonte); a RTP, a SIC e o Expresso detêm os maiores níveis de confiança dos leitores.

#2 A exposição interativa que reúne as melhores fotografias de 30 anos do Público está muito boa. Também há o livro e a exposição física, que pode ser visitada até 21 de setembro, na Casa da Calçada, em Viseu.

_COISAS DAS CIDADES

#1 "É nas grandes cidades e metrópoles que se continuam a concentrar os maiores investimentos económicos e culturais, bem como contínuas vagas de migração e de crescimento demográfico; mas é igualmente nestas que existem as maiores concentrações de pobreza e que os níveis de desigualdade são mais agudos." O economista e geógrafo urbano João Seixas escreveu sobre a cidade em metamorfose, agravada pela pandemia, no Público.

#2 Também precisamos de passeios novos nas cidades. A pandemia, que nos obrigou a andar mais a pé na vizinhança, trouxe outra vez à tona o impacto da má qualidade dos passeios (ou da falta deles). Este artigo da City Lab é delicioso.

 

_COISAS DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS

#1 Já está disponível o Barómetro Gerador QMetrics 2020 - Estudo Anual sobre a Percepção da Cultura em Portugal. O estudo conclui, por exemplo, que 70% dos portugueses assumem que a cultura está presente de forma regular nas suas vidas, que 20%  estão dispostos a pagar por concertos na Internet e que 57% criticam as medidas do Governo em relação à cultura, durante a pandemia. O estudo é importante, embora a amostra seja muito pequena (1201 indivíduos). São necessários mais estudos regulares sobre os públicos da cultura, o perfil de consumo e a própria inovação nas infra-estruturas culturais.
 

_COISAS DE CRIADORES: BEATRIZ HORTA CORREIA

Obter a memória de um livro através de porcelana absorvida pelo papel é, no mínimo, um desafio aos limites da matéria. Beatriz Horta Correia ultrapassa-os continuamente: há esculturas gigantes, mas leves, e poesia marcada pelo peso do grês.


A sua atividade artística centra-se no desenho e na cerâmica. A primeira é bidimensional, a segunda tridimensional. Complementam-se?
Sim, o meu trabalho em cerâmica/escultura tem muito a ver com o trabalho em desenho, há uma linguagem comum e interessa-me conjugar ambos, criar diálogos e sinergias entre as várias obras. Para mim isso é natural, pois reflete como eu penso, sinto e me relaciono com o mundo. São muitas as relações, formal, cromática, de conteúdo e até na própria matéria, apesar de um ser bidimensional e a outra tridimensional.

 
Na instalação "Com que matéria se fazem poemas?" funde os livros em porcelana (ou ao contrário). Que mensagem quer passar com essa fusão?
Esse trabalho foi realizado com livros de poesia e barbotina de porcelana. A porcelana, ao ser absorvida pelo papel, adquire a forma do mesmo, e depois é trabalhada para lhe dar a forma que pretendo. Pela ação do fogo, durante a cozedura, o papel transforma-se em cinza ou pó e desaparece; a porcelana solidifica e mantém-se estável. Com este processo pretendo obter a memória daquele livro. Existe uma transformação da matéria, interessa-me explorar este aspeto, o lado efémero das coisas, da ausência e da permanência. Há todo um desafio ao testar e tentar controlar os limites da matéria, da sua fragilidade e resistência.
As suas obras são muito orgânicas, quase se fundem com a natureza. É esta a base do seu processo criativo?
Sim, em grande parte. A paisagem e a natureza são referências e pontos de partida em muitos trabalhos. De facto uma grande fonte de inspiração. Interessa-me trabalhar estas temáticas afastando-me de uma representação da realidade, trabalho muito mais com memórias ou a partir de percepções e sensações, ou ainda com referência a textos ou poesia, do que mimetizando o real, muitas vezes até caminhando para a abstracção.
 
A escultura de papel que fez na residência artística na Viarco em 2018 remete-nos para a "insustentável leveza" do ser, da arte ou do papel?
Foi de facto um privilégio ter feito esta residência na Viarco, tive a oportunidade de trabalhar num espaço único, explorando materiais excepcionais e com um acolhimento extraordinário. As esculturas que criei em papel vegetal são peças com alguma dimensão (cerca de 2,50 m de altura) mas extremamente leves. Foram instaladas na secção da mina da fábrica, um espaço escuro, onde tudo está envolvido em grafite ou em pó de grafite, um brilho metálico, com máquinas que são verdadeiras relíquias de arqueologia industrial... Estas esculturas são como que corpos vazios, leves, brancos, translúcidos, ausências, com formas pouco definidas, suspensos, aproveitando a luz e o vento. São desta forma um jogo de opostos - luz/escuridão, positivo/negativo, ser/não ser, peso/leveza.
As suas obras são muito orgânicas, quase se fundem com a natureza. É esta a base do seu processo criativo?
Sim, em grande parte. A paisagem e a natureza são referências e pontos de partida em muitos trabalhos. De facto uma grande fonte de inspiração. Interessa-me trabalhar estas temáticas afastando-me de uma representação da realidade, trabalho muito mais com memórias ou a partir de percepções e sensações, ou ainda com referência a textos ou poesia, do que mimetizando o real, muitas vezes até caminhando para a abstracção.
 
A escultura de papel que fez na residência artística na Viarco em 2018 remete-nos para a "insustentável leveza" do ser, da arte ou do papel?
Foi de facto um privilégio ter feito esta residência na Viarco, tive a oportunidade de trabalhar num espaço único, explorando materiais excepcionais e com um acolhimento extraordinário. As esculturas que criei em papel vegetal são peças com alguma dimensão (cerca de 2,50 m de altura) mas extremamente leves. Foram instaladas na secção da mina da fábrica, um espaço escuro, onde tudo está envolvido em grafite ou em pó de grafite, um brilho metálico, com máquinas que são verdadeiras relíquias de arqueologia industrial... Estas esculturas são como que corpos vazios, leves, brancos, translúcidos, ausências, com formas pouco definidas, suspensos, aproveitando a luz e o vento. São desta forma um jogo de opostos - luz/escuridão, positivo/negativo, ser/não ser, peso/leveza.
Também desenvolve projetos de design principalmente na área da cultura. É muito diferente fazer design de produto ou de marca para o mercado cultural?
Desenvolver um projecto de design envolve sempre um pensamento, um entendimento daquilo que se pretende criar. É pelo menos assim a maneira como eu trabalho, e deste modo, não é muito diferente a maneira de fazer, qualquer que seja o âmbito do produto a desenvolver. A diferença está, talvez, na afinidade e proximidade que se tem com esse mercado, que pode deste modo ajudar no desenvolvimento do processo de criação para encontrar as soluções adequadas.

Beatriz Horta Correia: website.
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