Copy
View this email in your browser
#7 29-03-2020 
Notas semanais sobre vida académica, inovação nos media e indústrias criativas, inspiradas nas 164 "listas de coisas" que Sei Shōnagon partilhou no The Pillow Book (Séc. XI). 
Share Share
Tweet Tweet
Forward Forward
Rare Things 

People who live together and still manage to behave with reserve towards each other. However much these people may try to hide their weaknesses, they usually fail. (...) When people, whether they be men or women or priests, have promised each other eternal friendship, itis rare for them to stay on good terms until the end.

(Sei Shōnagon’s Lists, The Pillow Book)

_COISAS DA VIDA ACADÉMICA

#1 Confesso que a reclusão não me faz assim tanta confusão. Já passei muitos dias em casa mergulhada em projetos. Na fase final da escrita da tese de doutoramento, parecia que a vida lá fora era uma miragem. Admito que a minha natureza introvertida também ajuda: quantas vezes, mesmo adolescente, preferia estar em casa a ler livros roubados da biblioteca do meu pai (mal ele sabia que entre Eça e Alexandre Herculano também devorava Anaïs Nin, a costela erótica de David Mourão Ferreira ou Sade) do que ir para pontos de encontros. Depois, quando fiz teatro durante uns anos, isso mudou um pouco, mas ainda hoje gosto muito de estar comigo a pensar na vida.

#2 No entanto, não tenho dúvida de que o melhor da vida são as pessoas que nos são queridas e que me faz realmente confusão é o que aí vem, depois da Covid-19. A reclusão não é nada em comparação com a incerteza de um futuro (quando a certeza é a de que não vai ser o mesmo). Por exemplo, na cultura, já repararam que os artistas perderam as pessoas mais importantes das suas vidas (o público)? Conforta-me saber que, no final disto, vamos poder contar uns com os outros.

#3 No ano passado, lancei-me na aventura de construir uma pós-graduação, concretizada com o apoio de profissionais inestimáveis: António Granado, Carlos Vargas, Diogo Queiroz de Andrade, Elisabete Caramelo, Inês Queiroz, Luís Veríssimo e Patrícia Ascensão. Na primeira edição, a pós-graduação em Comunicação de Cultura e Indústrias Criativas teve três vezes mais candidaturas do que as vagas existentes (agora 30) e ficou no top 3 de todas as pós-graduações da NOVA FCSH, o que prova a competitividade deste curso. As candidaturas para o ano letivo 2020-21 já estão abertas (e até 19 de abril). Podem ver o plano de estudos aqui ou no próprio website da pós-graduação.

_COISAS DOS MEDIA

#1 As Nações Unidas lançaram uma call dirigida a todos os designers, criadores de conteúdos, jornalistas e outros criativos no âmbito da COVID-19. A Global Call for Creatives pretende transformar em conteúdos apelativos, dirigidos a todas as comunidades, informações relativas a comportamentos a ter em conta durante a pandemia. Os conteúdos poderão ser criados para redes sociais, websites, plataformas de streaming, rádio e televisão. 

#2 Está aberta a chamada de artigos para a edição temática da revista Media & Jornalismo, sob o título "Hibridismo nos media: novos géneros e formatos jornalísticos". Eu e o António Granado somos os editores deste número. O prazo para envio dos artigos completos termina a 15 de agosto.




_COISAS DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS

#1 Nas séries Mujer Casa e Home Maid, a fotógrafa colombiana Paula Ospina explora a relação da mulher com a casa, o trabalho e outros estereótipos associados ao feminino. Vive em Barcelona e é uma fotógrafa a seguir. 

#2 A digital product designer Ana Rodrigues lançou o projeto comunitário Go Small or Stay Home. É um diretório de comércio local (que ainda está a crescer) que nos diz quais são as mercearias ou drogarias mais perto da nossa casa. É uma forma de ajudar o comércio local nestes tempos difíceis.

#3 Por falar nisso, a Ana Rodrigues estudou na NOVA FCSH e faz parte da galeria 20/20 - Ideias com nota 20 que a faculdade lançou na semana passada. É um projeto que agrega criadores e projetos criativos de antigos alunos. Está lá a Rita Marrafa de Carvalho, a Bárbara Tinoco e muitos outros. Nota 20.

_COISAS DE CRIADORES: CARLOS MOURA-CARVALHO

Carlos Moura-Carvalho é sinónimo de cultura de proximidade, em Lisboa. É provável que na esquina da nossa casa ou perto do local de trabalho tropecemos numa iniciativa sua. Uma das mais icónicas foi a transformação de uma cabine telefónica na Cabine de Leitura, na Praça de Londres, mas há mais.
 

O teu percurso coloca-te nos dois lados do palco: enquanto criador de várias iniciativas culturais em Lisboa e enquanto alguém que apoia criadores - por exemplo, enquanto Diretor-Geral das Artes, entre 2015 e 2016. Num caso e no outro, quais são as tuas maiores criações?

No primeiro caso talvez o Cine Conchas, a Cabine de Leitura, o Festival da Palavra, a Galeria Lumiar Cité da Mamaus na Alta de Lisboa, a própria Mercearia Criativa, a Open Night, a Lisboa Halloween Parade...

Como Diretor Geral das Artes, a definição estratégica e proposta de curadores pela primeira vez em simultâneo para as Bienais de Veneza de Arquitectura e de Artes de 2016 e 2017. Esta ideia ajudou a potenciar os dois eventos, quer pelas parcerias estabelecidas, apoios angariados e redes de contactos para divulgação e projeção dos artistas e de Portugal. E a ideia de criação de um Plano Nacional para as Artes em 2016.

 

O Festival da Palavra, que foi adiado para data oportuna, é um exemplo de evento que mexe verdadeiramente com as estruturas e a comunidade de um bairro (em 2020, inclui várias freguesias de Lisboa). A Cabine de Leitura, na Praça de Londres, também é um exemplo emblemático desta ação georreferenciada. A cultura local e de proximidade deverá ser cada vez mais uma aposta dos agentes culturais?

Num momento em que temos acesso ao mundo através da Internet, temos simultaneamente vontade de participar e nos envolvermos em projetos em que a proximidade é o foco. Projetos em que sintamos como espectadores e intervenientes que a nossa voz é ouvida, que o orador está a falar para nós e que estamos a falar para alguém que nos ouve. A empatia e cumplicidade que um projecto cultural de proximidade envolve é e será cada vez mais importante. Haverá sempre espectáculos em estádios, em grandes salas, sobretudo na música. Mas no cinema, nos eventos literarários e até no teatro penso que cada vez mais caminharemos para formatos mais pequenos, intimistas e de bairro.

Num artigo recente que escreveste para o Público, afirmas que o pacote de medidas anunciado pelo Governo para a cultura, no contexto da Covid-19, é muito positivo, mas não chega. O que pode ser feito a curto prazo para ajudar, a um nível mais micro, cada artista?

Vivemos uma das mais complexas e desafiadoras crises que alguma vez enfrentámos. No que à Cultura diz respeito, ela atingiu a coluna vertebral da sua sustentabilidade económica: o público. Os resultados para a Cultura são já devastadores: adiamento e cancelamento de exposições e de espectáculos, cessação de contratos, desemprego, imensuráveis perdas financeiras. Genericamente, defendo a implementação de medidas urgentes que assegurem empregos e um mínimo de garantias imediatas e isso tem de ser assegurado pelo Estado, quer legislando, quer apoiando financeiramente, injectando mais verbas no sistema. O que tem sido anunciado é positivo. Mas não chega.

Mas também defendo aproveitar este momento para proceder a uma alteração mais profunda do “sistema” e atuar estratégica e estruturalmente, repensando modelos de financiamento, nomeadamente o regime do mecenato cultural, mas também de proteção social.

Uma das propostas que apresento, e que procura ter um carácter simbólico, ilustrativo dessa nova forma de atuar, é a criação de um Fundo Especial de Investimento Cultural, envolvendo múltiplos setores da sociedade portuguesa, incluindo o Estado, entidades privadas, nomeadamente as principais fundações, entidades que atuam no sector cultural, bem como empresas de média e grande dimensão, nomeadamente na área das telecomunicações e media, que assumem já uma significativa responsabilidade nos domínios artístico e cultural. Neste momento só em conjunto conseguiremos ultrapassar esta crise. Mesmo.

 

Esta situação excecional também potenciou a transformação digital de alguns mercados culturais. Achas que não vai passar de uma medida de emergência ou é verdadeiramente uma oportunidade para os agentes culturais abraçarem o potencial da tecnologia aplicada à cultura?

O perfil do consumidor cultural tem vindo a mudar nos últimos anos. Os meus filhos de 20 e 17 anos cresceram com o Google, o Facebook, o Twitter, o What’sApp, o Instagram. Habituaram-se a fazer visitas aos museus com Apps, a comprar bilhetes de cinema ou concertos on line, a irem acampar para festivais de musica que duram dias.

Com esta pandemia, acredito que esse perfil vá mudar ainda mais. A migração dos concertos de música, do cinema e até do teatro para o streaming vai intensificar-se. As grandes empresas produtoras de cinema já estão a rever os seus modelos de negócio de modo a aproveitarem ainda mais a Internet. E é muito provável que os próximos lançamentos de cinema sejam directamente nas plataformas e não nas salas.

Qualquer crise, ainda mais uma gigantesca e indomável como a que vivemos, exige reflexão, parar para pensar e logo de seguida capacidade de reacção, mudança, melhoria. Aproveitar a oportunidade e reagir. Estou absolutamente convencido de que esta crise vai obrigar mesmo a mudar muita coisa.

Subscreva esta newsletter
Enviem sugestões, comentários, receios ou elogios para dorasantossilva@fcsh.unl.pt. Até para a semana!
dorasantossilva.com
 
Copyright © 2020 |  My Pillow Notes |  Todos os direitos reservados

Cancelar a subscrição

 






This email was sent to <<Email Address>>
why did I get this?    unsubscribe from this list    update subscription preferences
My Pillow Notes · Lisboa · 1000274 Lisboa · Portugal

Email Marketing Powered by Mailchimp