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#14 26-05-2020 

Notas sobre vida académica, inovação nos media e indústrias criativas, inspiradas nas 164 "listas de coisas" que Sei Shōnagon partilhou em The Pillow Book (Séc. XI). 
 
Nesta semana, fala-se de financiamento do jornalismo, bom jornalismo e do projeto genoma artístico de Marco Ayres.
Things that create the appearance of deep emotion

The sound of your voice when you’re constantly blowing your runny nose as you talk.
Plucking your eyebrows.

(Sei Shōnagon’s Lists, The Pillow Book)

_COISAS DA VIDA ACADÉMICA

#1 O Dia Aberto serve para isto. As universidades devem ter um diálogo contínuo com os alunos, alumni e potenciais interessados. Não se trata de vender cursos, trata-se de divulgá-los para que os alunos saibam exatamente aquilo que os espera. No dia 3 de junho, realiza-se via zoom o Dia Aberto dos Mestrados e Pós-Graduações da NOVA FCSH. Se estiverem interessados em conhecer a oferta do Departamento de Ciências da Comunicação, em especial a Pós-Graduação em Comunicação de Cultura e Indústrias Criativas, inscrevam-se aqui e perguntem-me tudo o que quiserem nesse dia.

#2 Se quiserem ter mais certezas antes desse dia, podem assistir online a uma das aulas extra de Jornalismo Cultural, uma das unidades curriculares da pós-graduação, agendadas para 1 e 2 de junho, às 18h (façam o pedido por e-mail para obter o link). 
  

 

_COISAS DOS MEDIA

#1 A capa do New York Times de 24 de maio, com os nomes de pessoas que não resistiram à Covid-19, tornou-se viral. Sempre gostei de capas tipográficas, ainda mais quando transmitem mensagens poderosas como esta (isto é que é ativismo jornalístico). Infelizmente, têm passado despercebidas as últimas capas da New York Times Magazine que são tão ou mais simbólicas. Partilho aqui duas do arquivo.
Capa da New York Times Magazine de 3 de maio para ilustrar o especial "How Covid-19 has revealed the deadly reality of a racially polarized America"
Capa da New York Times Magazine de 24 de maio sob o tema "What we've learned in Quarantine"

#2 Eu sei que não é possível aceder aos conteúdos da New York Times Magazine (ou do New York Times) gratuitamente, mas o bom jornalismo deve pagar-se. O mau é que não. Neste momento, o New York Times está com uma campanha de subscrições de 1 Euro por mês, durante um ano. 

#3 O bom jornalismo é um serviço cultural essencial. Não preciso de partilhar a minha opinião sobre a polémica em torno do apoio estatal à comunicação social. Já o fizeram (melhor do que eu faria) aqui e aqui. Mas tenho de reforçar quatro ideias: 1) o Estado deve apoiar o jornalismo; 2) o Estado deve apoiar o jornalismo, mas não desta forma; 3) o Estado não apoiou o jornalismo, mas a comunicação social; 4) o jornalismo é um bem e um serviço cultural essencial, ou seja, aqueles que repudiam este apoio do Ministério da Cultura porque argumentam que o jornalismo não é cultura (infelizmente, alguns profissionais das artes) também deveriam questionar-se se algumas práticas artísticas são efetivamente culturais. Percebem como este raciocínio é perigoso?


#4 O que é um bom jornalismo? Não é pergunta para uma milhão de dólares porque é muito fácil de responder, mas pode ser pergunta para queijinho. Começando pelo básico do básico, façam este exercício arqueológico: consultem agora as homepages deste, deste, deste, deste e deste jornal (todos generalistas). Depois excluam aqueles que: 1) não nos dão qualquer informação pertinente para compreender o que se passa no mundo; 2) replicam o que já está em todo o lado sem um olhar diferenciado; 3) afirmam que o grande desafio deste Verão é tornarmo-nos na próxima bomba sexual e destronar a mulher do Cristiano Ronaldo. O queijinho está nos que sobrarem.

_COISAS DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS

#1 As conversas sobre arte continuam. Na terça, 26, às 18h, modero a conversa sobre Arte e Comunidades, com a participação da Maria do Carmo Piçarra e o José da Costa Ramos. A cultura é importante? É preciso financiá-la? Estas são algumas das questões em cima da mesa. A conversa decorre em direto aqui
 

_COISAS DE CRIADORES: MARCO AYRES

É artista plástico e acredita no alargamento da consciência humana através da arte. Se o mundo ainda não é totalmente prova disso, o seu projeto Genoma Artístico dá mais um contributo para o progresso da civilização ou, melhor, da cultura. 

Ter nascido numa família de artistas plásticos – é bisneto de Frederico Ayres e sobrinho de João Ayres – ditou desde cedo o seu caminho ou foi uma paixão tardia?
Não sei precisar exatamente qual foi a idade com que comecei a desenhar e a pintar porque nunca me desprendi dos lápis e canetas de cor desde pequeno. Desenhava todos os dias. O meu irmão mais velho dizia-me para eu largar as canetas e ir brincar com ele. É óbvio que não ia.

Sei que o meu primeiro quadro a óleo foi aos oito anos. Lembro-me perfeitamente de que fiquei irritado porque os meus pais me deram uma prancha de madeira branca e a tinta não fixava. Escorregava infinitamente. Lembro-me de dizer que queria uma tela e pincéis bons porque eu era um pintor e que essa seria a minha profissão para a vida.

Tenho também uma vaga ideia de a minha mãe ter sido chamada à escola nessa altura porque a professora primária alegava que eu devia de ter um distúrbio qualquer, porque desenhava de forma completamente diferente das outras crianças. Enquanto todas retratavam uma família feliz junto a uma casa com um rectângulo e um triângulo com uma porta e uma janela, eu desenhava várias casas diferentes, telhados e janelas bem abertas e fechadas, portas, chaminés, passeios com pedras da calçada, carros, bicicletas, muitas flores, árvores com raízes, folhas e frutos… Oh! E o céu… esse estava cheio de gaivotas, andorinhas, aviões, nuvens com chuva e um sol. Esse Sol era muito particular. Era apenas uma bola branca, sem laranjas nem amarelos e muito menos riscos circulares. Por isso não diria que foi uma paixão tardia. Diria que era algo inato dentro de mim.


No projeto Genoma Artístico (2003-2017), criou várias obras de quatro telas que se combinam entre si de variadas formas. Que mensagem quer passar com essa mobilidade da arte?
Ainda hoje ao telefone um amigo me disse: “Obrigado, Marco Ayres, por teres telefonado ao patrão a justificar a ausência do meu filho neste evento, fico muito grato” e ao qual lhe respondi: “de nada”. Assim são as minhas telas: comunicam umas com as outras como se fossem pessoas. É nas conjugações entre elas que eu vejo um equilíbrio hermético entre a razão e o coração no ser humano. O verdadeiro entendimento e compreensão entre os seres que se auxiliam e trocam impressões entre si.

A mobilidade das quatro telas, as quais designo de sequências, não só se referem às bases do ADN, mas também às pontes Ayresianas. As pontes Ayresianas são princípios e registos de memórias minuciosamente detalhadas de informação fidedigna que comunica uma essência de forma constante como se fosse uma verdade absoluta. Um exemplo muito simples: uma pessoa A comunica com uma pessoa B e é formado um círculo de informação; a pessoa B ao encontrar C diz que esteve com A e que geraram ambos um círculo. Este é o princípio do equilíbrio hermético. Se B, ao encontrar C, não a informasse de que esteve com A a gerar esse círculo, haveria a hipótese de surgir a mentira em ambas as partes e os conflitos nasciam gerando o caos se A decidisse simplesmente mudar de forma.


 
Sequência Fernando Pessoa, 2012. Composição de 4 telas que podem rodar e encaixar sempre umas nas outras numa composição entre o abstrato e o real. Acrílico.

No seu website e em várias folhas de sala, diz que acredita no progresso da civilização e no alargamento da consciência humana através da arte. Como é que esse ideal se reflete nas suas práticas artísticas?
Em tudo. No meu dia a dia eu tenho sempre presente comigo o número quatro que se resume aos quatro elementos: fogo, água, terra e ar. Para muitos, estes elementos passam por despercebidos. Não têm qualquer importância ou relevância nas suas vidas e no seu dia a dia, talvez por estarem ocultos e os seus acessos mais restritos. Para atingirem um determinado conhecimento de sobrevivência, precisam de trabalhar mentalmente e acompanhar todos os processos contínuos de início e fim, que os levam à matriz da vida, o ADN. Para mim, estes elementos representam uma chave para a resolução de todos os nossos problemas. Entendê-la e aplicar as suas subchaves na nossa vida e no quotidiano seria desde já um progresso para a civilização de certeza absoluta. Noutra vertente, esta prática diária, ao ser aplicada à arte em geral, poderia gerar maior criatividade e um alargamento da sua própria consciência. Um novo homo digitalis e universalis.
 
A comunicação com o público das suas obras faz-se pelo circuito tradicional – galerias, exposições e encomendas privadas – ou o ambiente digital também já faz parte do seu espaço público?
A comunicação com o público começou por ser num circuito de galerias, exposições e especialmente em encomendas privadas. Poderia dizer que, na primeira abordagem, no circuito das galerias, deparei-me com um facto curioso e pouco sensato: os artistas em geral, e não posso dizer que fossem todos iguais ou que agissem de igual forma, limitavam-se a deixar a obra falar por si, presa e abandonada numa parede à espera de ser vendida.

Eu recusei-me por completo deixar que alguém, um galerista neste caso, que pouco conhece ou comunica com a obra e muito menos com o artista, tivesse um amor ao conhecimento das obras em exposição, porque lamentavelmente, é uma realidade, não tem… só pensa em vender e obter lucros para si e mais ninguém.  Eu fazia sempre questão em estar presente como se a obra fosse um filho ou filha que fosse prestes a ser deixado(a) no altar para que a noiva(o) a(o) viesse buscar para amar e proteger. É evidente que falo no sentido metafórico, mas parece que a receção para com o cliente da minha parte foi de facto mais eficaz. Não me recordo em caso algum que não tivesse vendido uma obra porque de facto eu estava lá, não de olhar para ela à espera que ela fosse vendida, mas para defendê-la, dar a conhecer os seus mistérios, a comunicar o seu nascimento e o seu desenvolvimento em sucessivas formas de conjugar e interagir com o publico.

Num segundo circuito de exposições eu conseguia ver as telas felizes por interagir com outras telas de colegas artistas e nesse circuito deparei-me com o reflexo do meu ser perante a obra e outros artistas. É como se as verdadeiras obras fossemos nós e não as telas pintadas. As conjugações e permutações entre seres. Por fim, as encomendas privadas geraram um outro conflito entre quem encomenda e quem produz a obra de arte. Quem encomenda claramente tem uma certa presunção. Usa e abusa do poder em querer deixar o artista subjugado e entregue aos seus caprichos e desejos. Eu quero, posso e mando… nas minhas sequências não são possíveis enquanto não houver entendimento entre a liberdade do artista e a visão de quem encomenda. Esta união e casamento só pode resultar se as telas mostrarem todas as hipóteses de conjugar ideias entre ambos e mesmo havendo discórdias, o artista, neste caso eu, sou obrigado a resolver a problemática do caos e impor uma nova ordem no todo.

Neste momento todo o meu ambiente digital faz parte do meu espaço público. Importa definir o que é para mim um espaço público: a visão que tenho sobre o meu projeto é que ele se transmuta para uma plataforma autossuficiente como se fosse um organismo vivo e em constante movimento. A obra física, real tem de ter sempre uma plataforma digital que lhe permita comunicar, interagir e partilhar as suas características intrínsecas; é através das mutações que ela se expressa e realça o seu real valor e identidade.


 
Sequência Ponte I, 2013. Composição de 4 telas que podem rodar e encaixar sempre umas nas outras. Acrilico s/tela.

Consegue dedicar-se totalmente à arte ou as obrigações financeiras exigem-lhe outros ofícios?
Neste momento tenho um filho de 2 anos e 8 meses que não pode estar na creche devido à pandemia. Como a minha mulher está em teletrabalho, torna-se difícil gerir a total dedicação à arte. Por isso, parte do dia cuido do meu filho e afazeres da casa. À noite, dedico-me a várias áreas artísticas e sempre interligadas com o meu projeto.  Não posso dizer que a vida tenha sido um mar de rosas porque não tem. Tenho tido ajuda dos meus pais, mulher e estou grato. Penso que isso é uma forma de dizer que acreditam e apostam no meu valor. Já tentei mudar de área, mas parece que o Universo conspira contra mim. Como se eu tivesse este Dharma e o meu Karma fosse regido pelas pessoas que me acompanham e acreditam em mim, para não desistir. Em resposta à pergunta eu diria que sim. Consigo. A vida tem-me mostrado que se acreditar e lutar pelos meus valores tudo se consegue. Por vezes é desesperante estar a zeros [suspiro], mas também a reviravolta vem na frontalidade das nossas ações.
 
A pandemia teve impacto no seu quotidiano como artista plástico?
Teve no bom sentido. Atingiu as pessoas na consciência e na cooperação coletiva para proteger os interesses do próximo. Tive mais apoio agora do que se não houvesse pandemia, no meu seio de amigos e instituições. Curiosamente, não sei se foi o confinamento das pessoas que gerou isso, mas houve uma grande mudança no olhar e compreensão das minhas obras.

Seria talvez presunção da minha parte admitir que se fez luz neste momento e que antigamente o estado das pessoas era de latência, pouco anímicas e objetivas, um adormecimento coletivo e universal se quisermos pôr nesses termos. A pandemia levou à criação de um movimento SOS Arte da qual faço parte e sou um dos membros fundadores. Tenho seguido pontualmente a forma organizada e bem planeada dos responsáveis deste movimento e parece que deixei de ter medo de me mostrar. É como se fosse um chamamento e eles os meus guias. Ainda não tenhas receio porque este é o momento, o momento de te revelares e mostrares ao mundo o que significa a partilha e respeito pelo próximo, o que nos une e separa, a saudade de um futuro que parece não vir ou será antes de um passado que nunca existiu.
 
 Marco Ayres: Facebook e website.

 
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