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Notas semanais sobre vida académica, inovação nos media e indústrias criativas, inspiradas nas "listas de coisas" que Sei Shonagon partilhou no The Pillow Book (Séc. XI).

Things That Cannot Be Compared

Summer and winter. Night and day. Rain and sunshine. Youth and age. A person’s laughter and his anger. Black and white. Love and hatred. Rain and mist. (…)

When one has stopped loving somebody, one feels that he has become someone else, even though he is still the same person.

COISAS DA VIDA ACADÉMICA

#1 Um professor universitário do ensino público leciona em média 9 horas de aulas por semana. (Neste semestre, por exemplo, leciono 13.) Podem parecer poucas, mas não o são de todo, porque esse trabalho vai muito mais além dessas horas que passa numa sala de aula. Aos desafios da investigação e da publicação de artigos, às idas a conferências, à preparação das aulas, aos cargos e projetos de extensão universitária, às dezenas de orientações de teses, junta-se um desafio que, na minha opinião, é tão ou mais exigente do que todos os outros: acompanhar o aluno. Esse aluno pode estar no primeiro ano da licenciatura e acabou de apanhar o primeiro choque de uma frequência com 11 valores quando entrou na faculdade com média de 19. Esse aluno pode estar no terceiro ano e não sabe o que há-de fazer depois. Esse aluno pode estar numa pós-graduação e não sabe como contornar o desafio de querer mudar de profissão, mas ao mesmo tempo ter encargos financeiros. Esse aluno pode ser diretor de marketing de uma multinacional ou editor de um jornal, mas está às escuras com o doutoramento e a dinâmica da academia. Para todos eles são necessárias diferentes respostas e diferentes abordagens, mas acima de tudo respeito pelas suas necessidades, receios e expetativas. Chego a passar mais tempo numa semana a conversar com alunos do que a lecionar. Mas o ensino é isso mesmo: um trabalho colaborativo.

COISAS DOS MEDIA

#1 O trabalho colaborativo é o futuro dos media e de outras indústrias criativas, porque responde a uma necessidade do ambiente digital: conteúdos com qualidade jornalística, um bom conceito criativo e a capacidade de envolver os utilizadores. Dois exemplos de inovação colaborativa no jornalismo são o By The Way, do The Washington Post, que junta jornalistas e utilizadores, e  Hurricane Maria’s Dead, que resulta da colaboração entre o Quartz, a Associated Press e o Center for Investigative Journalism de Porto Rico.

#2 A portuguesa Mariana Moura Santos, que já passou pela equipa interativa do The Guardian e é CEO das Chicas Poderosas (que fundou) diz precisamente que o futuro do jornalismo é colaborativo, nesta previsão que escreveu para o Nieman Lab.

#3 Ainda sobre este tema, 99,9999% dos projetos galardoados no Online Journalism Awards 2019 resultam de uma abordagem colaborativa (nos parceiros, nas equipas ou nos formatos).

COISAS DA CULTURA E DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS  

Estas foram partilhadas pelos meus alunos da Pós-Graduação em Comunicação de Cultura e Indústrias Criativas:

#1 Um museu interativo totalmente dedicado à palavra fala, escrita e cantada. É o Planet World Museum e vai abrir portas em Washington, a 31 de maio de 2020. Dica da Antónia Carvalho.

#2 O projeto Synesthesia, da designer Bernadette Sheridan, permite-nos saber de que cores é feito o nosso nome. Dica da Luanda Farinha.

#3 Um vídeo produzido pelo canal Smithsonian recria o terramoto de Lisboa de 1755 (dica de Luanda Farinha). Também há artigos interessantes sobre esta catástrofe lisboeta, baseados em investigação da NOVA FCSH, no projeto editorial FCSH +Lisboa: aqui, aqui, aqui e aqui.

COISAS DE CRIADORES: CATARINA GOMES

Teve um percurso académico pouco convencional, como diz, mas foi esse hibridismo que a levou a participar num projeto de realidade virtual representado em Cannes e a estar agora no projeto Manicómio, dedicado a artistas com doenças mentais.

Tiraste uma licenciatura em Turismo, na cidade de Leiria, mas rapidamente saíste da bolha para a Dinamarca e a Holanda no âmbito de um mestrado Erasmus Mundus em Jornalismo, Media e Globalização. Tinhas 26 anos. Isso marcou o teu futuro?

Sim. Mudou-me como pessoa: conheci outras culturas e tive de cuidar da minha independência num país estrangeiro. Fiz o primeiro ano na Dinamarca e o segundo na Holanda, onde me especializei em Media e Política e, portanto, entrei numa rede de alumni com jornalistas e pessoas que trabalham nos setores das ONGs e com uma mente igual à minha. A Holanda tem um grande hub de pessoas que estão sempre à procura de novas oportunidades de emprego e projetos e foi isso que me possibilitou trabalhar durante uns anos a partir de Amesterdão.
 

Como é que entraste na área dos conteúdos digitais?

No segundo ano de mestrado, em 2011, comecei a estagiar numa organização chamada RNW Media (uma espécie de BBC Internacional holandesa), em especial num projeto pioneiro de comunicação e jornalismo digital sobre direitos sexuais, chamado Love Matters.  Com o fim do mestrado, fiquei a trabalhar lá até 2017. Vim morar para Lisboa em 2016, mas ainda trabalhei um ano à distância.

Daí até ao "Home After War" foi um pulo...

Uma amiga desafiou-me a fazer uma produção em realidade virtual 360 para o Love Matters Índia sobre desigualdade de género. Estivemos em Mumbai durante uma semana com uma equipa de criativos, developers, cenógrafos, jornalistas, produtores só a testar novas soluções porque ninguém sabia nada. A experiência de cinco minutos foi bem aceite e teve uma distribuição pelos metros de Deli e Mumbai. Foi a primeira experiência com este formato sobre desigualdade de género e sobre jornalismo e ONGs na Índia. Depois, participei no projeto “Home After War”, gravado no Iraque, que fez parte da selecção oficial de vários festivais de cinema, como o de Cannes e de Veneza, e ganhou um prémio na categoria de artes imersivas no Festival South by South West. Aí não estive no Iraque, até porque a maior parte do budget ia para a segurança da equipa de 2 pessoas que estava lá. Fiz o design da experiência.

Entretanto, fui ficando por Lisboa porque o trabalho foi aparecendo naturalmente com networking: organizei com a Carol Delmazo as primeiras XR Immersive Media Meetups em Portugal,  trabalho com investigadores (e contigo risos) da NOVA FCSH num projeto de realidade virtual para o Museu da Marioneta, colaborei num projeto de realidade aumentada associada ao jornalismo local com o Diogo Queiroz de Andrade – o RAlgés... Agora abracei o projeto Manicómio, que vai lançar  em breve uma revista só feita com trabalhos de artistas com doenças mentais. 

 

Faz a diferença para um jornalista passar por outras áreas da comunicação, mesmo que tradicionalmente incompatíveis com a profissão?

Definitivamente, porque consigo criar conceitos e desenvolver projetos de raiz. Não tenho perfil de jornalista de secretária, gosto de um processo colaborativo e horizontal, e toda essa minha experiência me permitiu criar e crescer.


Até para a semana,
dorasantossilva.com 
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