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#10 26-04-2020 

Notas sobre vida académica, inovação nos media e indústrias criativas, inspiradas nas 164 "listas de coisas" que Sei Shōnagon partilhou em The Pillow Book (Séc. XI). 
 
Nesta semana, a liberdade de imprensa e a liberdade artística ocupam o palco, além de mapas sobre vidas em recolhimento. O artista performativo Gonzalo Bénard também é ele liberdade. Enviem sugestões, comentários, receios ou elogios para dorasantossilva@fcsh.unl.pt ou em dorasantossilva.com
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Deeply Irritating Things III

One has gone to bed and is about to doze off when a mosquito appears, announcing himself in a reedy voice. One can actually feel the wind made by his wings, and, slight though it is, one finds it hateful in the extreme.

(Sei Shōnagon’s Lists, The Pillow Book)

_COISAS DA VIDA ACADÉMICA

#1 Já me fazem falta os passos a pé até à faculdade, a simpatia dos seguranças da garagem, as meninas do Com Sabor (e os croissants às 17h), as trinta vezes que digo "Olá" aos alunos, antigos alunos, colegas e patos até chegar ao sétimo andar, os minutos vagarosos da espera do elevador, as aulas com os alunos a dizerem-me "isso é tão 1999", a equipa e, em particular, o "piolho elétrico". (Esta private joke aprendi com o Rui Cardoso Martins; por falar nele, vejam este breve vídeo sobre o seu primeiro 25 de abril, no contexto da iniciativa da editora Tinta-da-China, "Confinados, mas livres sempre").

#2 Porém, não é por me fazer falta tudo isto que gosto de passar horas intermináveis no Zoom ou no Google Meet. Quatro videoconferências num dia deixam-me com uma ressaca tão grande como se tivesse bebido cinco gin tónicos. E afinal não sou só eu. Há mesmo aquilo a que se chama "Zoom fatigue": o artigo do National Geographic explica (dica da Elisabete Caramelo).

_COISAS DOS MEDIA

#1 Freedom and the Media 2019. Ainda ontem, 25, celebrámos a liberdade, mas os últimos dados da Freedom House sobre a liberdade dos media apontam para uma espiral descendente. O relatório indica que a liberdade de informação diminuiu nos últimos 10 anos, inclusive em democracias influentes, como os EUA, a Áustria, Israel, Índia, mas também a Hungria e a Sérvia.

#2 The Implications for Democracy of China’s Globalizing Media Influence. Neste ensaio (o primeiro de quatro sobre liberdade de imprensa e democracia), Sarah Cook explica como é o o Governo chinês está a expandir a sua influência nos media em todo o mundo. Os outros ensaios estão na mesma página (é preciso fazer scroll).

#3 Um novo programa semanal online sobre tendências e ideias que estão a mudar a face da democracia. É da Knight Foundation, o primeiro episódio tem o título "Flattening the curve of the infodemic" e conta com a participação de Jevin West, professor da Universidade de Washington e diretor do Center for an Informed Public

_COISAS DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS

#1 O mapa das nossas vidas em recolhimento Esta iniciativa do CityLab é inspiradora: pediu aos leitores que desenhassem os mapas dos seus "mundos" em tempo de Covid-19. O resultado é este (a imagem acima é outro exemplo).

#2 Impacto das doenças infecciosas na arquitetura das casas-de-banho  É delicioso este artigo sobre como é que a cólera, a tuberculose e outras doenças infecciosas redefiniram o design das casas-de-banho americanas.

#3 The State of Artist Freedom 2020 Não são boas notícias. O relatório analisa 711 atos de violação da liberdade artística: 39% corresponde ao setor da música e 28% desses atos aconteceram na Europa. O download do relatório pode ser feito aqui.
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_COISAS DE CRIADORES: GONZALO BÉNARD

Nasceu em Lisboa, mas foi nómada como a sua arte. Viveu entre Paris, Barcelona e passou uma temporada no Nepal e no Tibete até se fixar ao pé do mar. O seu corpo já foi tela da mesma artista que participou no filme “The Pillow Book”, que, em parte, inspirou esta newsletter.  

Ser autista

O facto de ser autista leva-me a ter uma vida muito mais isolada socialmente, e talvez por isso mais coerente comigo mesmo, mas com necessidade constante de expressar. Enquanto a maior parte das pessoas comunica socialmente, eu expresso-me melhor através das artes. Por isso é vital que seja coerente e verdadeiro comigo mesmo, embora o autismo seja um desafio na expressividade, um desafio constante. E por isso tenho as várias formas de expressar, através da pintura, da fotografia, da escrita, ou mais recentemente de performances que faço em galerias de arte aquando das minhas exposições. 
 
Os momentos que contagiaram a obra
Talvez dos mais importantes tenha sido quando finalmente decidi largar a minha “zona confortável” a trabalhar numa instituição (Centro Cultural de Belém) e ir para o Nepal e Tibete, primeiro num mosteiro-escola de filosofia e artes, e depois para as altas montanhas com os xamãs. Mais tarde, a experiência da morte cerebral da qual acordei sem memória e todo esse processo de um ano sabático para me “re-encontrar” ligou-me ainda mais a mim mesmo. Foram sem dúvida os dois momentos mais profundos da minha vida. Há obviamente outros menores e intermédios, como mudanças de lugar, já que cada cultura e cidade influenciam a forma como vivemos e nos expressamos. Eu aceito o desafio e deixo fluir. 
 
 
Depois da morte cerebral, em 2008
Eu tinha acabado de fazer uma exposição de pintura de grandes dimensões numa galeria em Los Angeles. Embora tenha estudado fotografia e escultura, até aí tinha-me dedicado com maior exclusividade à pintura. Depois da morte cerebral por 3 dias, fiz como parte da re-aprendizagem um ritual xamânico e muito naturalmente voltei à fotografia, com auto-retratos mais conceptuais e focados nos meus rituais xamânicos, como as séries de fotografia “Soul Matters” ou “Oneness”. Enquanto a pintura sempre foi o meu meio de expressar e trazer ou exorcizar memórias passadas, a fotografia trouxe-me ao momento presente, à minha ligação comigo mesmo e com a natureza. Uns oito anos mais tarde, quando voltei à pintura, reparei que já tinha “expurgado” o passado e naturalmente comecei a pintar sobre um futuro desejado. Depois veio a ligação dos dois: fotografia pintada, que é onde me tenho focado mais no presente, com séries mais conceptuais e meditativas, como por exemplo “Totem”, “Black Stones" ou “Spaced Out Space Within”.  

 
O corpo como tela de Yukki Yaura
Lembro-me de ter ido ver a performance de Yukki Yaura no Teatro del Mercat de les Flors [Barcelona] com uma amiga atriz catalã. Esta artista japonesa fez a caligrafia sobre os corpos num dos filmes de Peter Greenaway, “The Pillow Book” (1996). Eu sempre tive uma satisfação enorme em pintar sobre o corpo, tanto poesia como desenho, tanto no meu próprio corpo como no de amigos, amigas ou modelos.  Quando a Yukki pediu um voluntário a uma plateia de cerca de 300 pessoas, creio que antes de acabar o pedido já eu percorria o corredor central em direção ao palco, à medida que me ia despindo. A minha amiga não hesitou e seguiu-me, e assim passámos os dois a ser tela para os pincéis e tinta da china da Yukki Yaura, uma experiência única. 
 
Depois do mundo, junto ao mar
A minha casa agora é em frente ao mar, perto de Lisboa. Uma relação complexa e simples. O mar faz sonhar e andar sobre as águas, mas desliga-me muito da sociedade, como se vivendo de frente para o mar me fizesse voltar as costas às pessoas que vivem no elemento terra. Como sou muito eremita por natureza, esse desligar é fácil. Muita do meu trabalho nos últimos anos tem sido feito através de vídeo-conferências, desde aulas um pouco por todo o mundo, até “receber” clientes no meu atelier por skype, ou mesmo sessões fotográficas como a série sobre solidão juvenil “B Shot by a Stranger” em que trabalhei durante 7 anos com mais de 50 voluntários de todo o mundo. 
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