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#5 13-03-2020 
Notas semanais sobre vida académica, inovação nos media e indústrias criativas, inspiradas nas 164 "listas de coisas" que Sei Shonagon partilhou no The Pillow Book (Séc. XI). 
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Things That Arouse a Fond Memory of the Past

To find a piece of deep violet or grape-colored material that has been pressed between the pages of a notebook. (...) It is a rainy day and one is feeling bored. To pass the time, one starts looking through some old papers. And then one comes across the letters of a man one used to love.

(Sei Shonagon’s Lists, The Pillow Book)

_COISAS DA VIDA ACADÉMICA

#1 Já se disse tanto sobre a pandemia Covid-19 em contexto académico que só vou acrescentar quatro pontos.

#1.1.Os professores e investigadores não devem resistir ao uso das tecnologias básicas para agilizar a comunicação com os alunos e colegas, como o doodle, o whatsapp, o Google Drive, o Hangout Meet, o Zoom, entre muitos outros (a literacia digital começa aqui); por outro lado, não se pode exigir que  saibam, de um momento para o outro, lecionar em formatos virtuais com a mesma qualidade e desenvoltura (é simplesmente impossível alguém que nunca criou um curso online saber fazê-lo em dias).

#1.2. Os alunos têm de se adaptar às novas circunstâncias de aprendizagem online, mas não se deve exigir que correspondam às expetativas traçadas para as aulas presenciais; há alunos no ensino superior (repito, há alunos no ensino superior) que não têm acesso à Internet em casa ou que não têm condições para aceder a aulas virtuais, que têm o dinheiro contado para almoçar e jantar nas cantinas, que vivem em ambientes disfuncionais, que estão fragilizados mentalmente, que estão neste momento mais preocupados com os filhos que estão em casa ou com o trabalho que poderão não ter.

#1.3. Dei a escolher aos meus alunos (cerca de 100 nos três ciclos) duas formas de comunicarmos nas próximas aulas: só um preferia ter aulas em videoconferência; todos os outros escolheram a opção que também prefiro prefiro, isto é, gravar pequenos vídeos com o que é mais eficaz ser partilhado oralmente, disponibilizá-los na plataforma juntamente com outros materiais de apoio, criar tarefas pequenas e muito específicas e estar disponível no horário da aula no whatsapp para quem quiser tirar dúvidas. O processo de aprendizagem utilizado nos MOOCs (Massive Online Open Courses) como os da The Knight Center for Journalism in the Americas ou os do Coursera parece-me o mais eficaz.

#1.4. Por fim, não tenho quaisquer expetativas em relação a estas aulas; encaro-as como extraordinárias (servem apenas para não quebrar o ritmo), e não vou exigir nunca a normalidade, quando este é um período de anormalidade para todos nós.  

_COISAS DOS MEDIA

#1 Associar um vírus a uma comunidade, classe ou raça é claramente desinformação (e descriminação). A pandemia já tem um nome. Como é que o Correio da Manhã ainda usa a tag "Vírus da China" para agregar conteúdos sobre Covid-19? Como é que ainda no dia 11 de março usava a expressão em títulos noticiosos? 

#2 No entanto, não há dúvidas de que este surto começou na China. Há duas causas culturais claramente ligadas a esta epidemia: em primeiro lugar, a longa tradição chinesa em "punir o mensageiro", especialmente aquele que dissemina verdades desconfortáveis (como aconteceu com os primeiros profissionais de saúde que alertaram a comunidade chinesa); em segundo, a crença chinesa de que a comida cura todas as doenças e o vazio da mente (e alguns animais entram na categoria a que chamaríamos na Europa de "super alimentos"). Este artigo, escrito por Yi-Zheng Lian, antigo editor executivo do Hong Kong Economic Journal, para o New York Times, lança umas pistas.  

# 3 Os wet markets (ou mercados de frescos) são muito populares na China. Na altura da epidemia da SARS, em 2003, foram frequentemente usados pelos media como fotografia de enquadramento, tornando-se, diz o antropólogo social Christos Lynteris na representação visual de uma pandemia. No entanto, o próprio Christos Lynteris confunde wet markets com wildlife markets, os  mercados de comércio de animais selvagens vivos. O novo coronavírus não teve origem no primeiro, mas, sim, no segundo.  Christopher St. Cavish, antigo chef e crítico de gastronomia, explica isto no Los Angeles Times (é de lá a fotografia). 

_COISAS DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS

#1 A palavra "quarentena" parece ter sido usada, pela primeira vez, no século XVI, em Veneza, durante a peste negra. Aliás, foi esta cidade italiana que construiu o primeiro Lazareto, um hospital destinado a isolar as pessoas que tinham a peste, e é lá que todos os anos se celebra o fim desta epidemia na tradicional Festa do Redentor. O Google Arts & Culture tem uma exposição online muito interessante sobre este ritual (a fotografia, que mostra um Lazareto, foi tirada de lá).

#2 O Pedro Mendes, do Coffee Paste, reuniu uma lista de eventos culturais nacionais e internacionais disponíveis online e em streaming (impressionante como órgãos de comunicação social copiaram o artigo sem citar a fonte). 

_COISAS DE CRIADORES: CAROLINA CALDEIRA E ANA NEVES

Carolina Caldeira é a fundadora do Bathstage®, projeto que põe músicos a dar concertos em casas-de-banho. Ana Neves juntou-se e faz o design de tudo. Há concertos novos no website, todas as segundas-feiras, até final de março.


A ideia que começou na banheira de um hotel.
[Carolina] Era subdiretora do hotel Lisbon Short Stay, na Rua dos Sapateiros, e tinha de comunicar a marca (sem saber muito bem o que era isso) porque a minha licenciatura foi em Psicologia (só mais tarde tirei um curso de Creative Advertising na Restart). Uma das minhas tarefas era verificar se os quartos e as casas-de-banho estavam prontos para os check-in. A certa altura, achei que seria giro passar o vibe das casas-de-banho com concertos lá dentro, porque toda a gente canta na banheira.

O primeiro concerto.
[Carolina] Pensei no Bathstage
® como um projeto de episódios de música – cada episódio conteria uma banda ou artista a tocar uma música numa casa-de-banho. Fiz o episódio-piloto com as Golden Slumbers numa casa-de-banho do hotel, em 2016. 

Em novembro desse ano, a startup Uniplaces convidou-me para integrar o projeto na festa da primeira edição do WebSummit – o Bathstage Music Festival.  A partir daí, tínhamos um episódio-piloto e um festival e comecei à procura de fundos e de uma equipa. O financiamento não veio, mas fui conhecendo pessoas que quiseram juntar-se à equipa mesmo assim.

Uma dessas pessoas. 
[Ana] Eu e a Carolina trabalhámos juntas numa agência de publicidade, eu como designer e ela como copywriter. Quando soube do projeto, ofereci-me logo para ajudar.  Hoje sou responsável pelo design e a comunicação. Éramos duas, de repente ficámos 4 e depois quase 20 porque o projeto tem muito potencial.


 
Os músicos.
[Carolina] Na primeira temporada, tivemos músicos mais ou menos conhecidos dos membros da equipa, como a Special-K, Nouã ou Catarina Ortins. Na segunda, a escolha já foi mais estruturada porque tínhamos o guião bem definido e também agarrámos artistas mais conhecidos [Mundo Segundo, Marinho ou Chico Bernardes].

As casas-de-banho desenhadas por arquitetos.
[Carolina] O processo de escolha da casa de banho é dos meus processos preferidos. Aliás, cada vez que vou a um lugar já estou a pensar na casa-de-banho. A ligação com a arquitetura fazia-nos todo o sentido e era uma forma de financiar o “palco” porque o artista nunca nos vai pagar. Damos palco à música e à arquitetura através da casa de banho.
[Ana] Quando começas a viajar pela história dos artistas, acabas por perceber que já todos gravaram alguma coisa na casa-de-banho.

Sustentável daqui a pouco.
[Carolina] Ainda não, mas acreditamos que este modelo que estamos a seguir, com a colaboração da arquitetura, dará resultado. É uma nova forma de fazer product placement.  Estes dois universos – a música e a casa-de-banho – ainda têm muito para dar.
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