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Newsletter #25  12.03.21

Notas de cabeceira sobre vida académica, inovação nos media, na cultura e nas indústrias criativas, inspiradas nas 164 "listas de coisas" que Sei Shōnagon partilhou em The Pillow Book (Séc. XI). 

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_COISAS DA VIDA ACADÉMICA

#1 Na vida académica há vários tipos de professores, cujas formas de reconhecimento foram mudando nos últimos anos. Não é algo simples, como comparar celebridades e estrelas, um fenómeno da cultura popular, caso queiram um exemplo totalmente exagerado. Para quem investiga esta área, sabe que comparar uma celebridade a uma estrela é como colocar uma sopa instantânea ao lado de um creme de ervilhas que já passou por crivos legítimos. As formas de legitimação e de reconhecimento mudaram, porque mudou o espaço público, mudaram os públicos, mudou a sociedade. Ora, nas universidades, em geral, os professores preparam as aulas, lecionam,  orientam teses, dissertações e outros trabalhos, investigam, participam em projetos internacionais, procuram financiamento para a sua investigação, criam cursos e reformulam existentes, fazem a seriação dos alunos dos segundos e terceiros ciclos, publicam artigos, livros, capítulos, etc., prestam serviços à sociedade, ocupam cargos nas estruturas da própria instituição (de direção, de coordenação de departamentos, de reflexão, etc.). Alguns destes professores sempre fizeram uma carreira académica; outros (como é o meu caso) estiveram fora desse mundo e ingressaram há uns anos nele; uns apostam mais numas áreas que outras (mais pessoais ou mais globais; mais societais ou mais pedagógicas), porque, naturalmente, o tempo não estica e há escolhas a fazer. Ora, dada esta heterogeneidade e complexidade de funções, perfis, talentos, vocações, exigências e vontades, não é possível pensar no papel (singular) que um professor universitário (no singular)  deve ter (será "deve" o mais apropriado?) na própria instituição ou na sociedade. Há muito mais ingredientes na sopa. Desengane-se quem pense que há aqui alguma indireta (aliás, orgulho-me de ter na minha faculdade pessoas, nos cargos certos, que já fazem esta reflexão). Food for thoughts, apenas, para a sociedade em geral. 

_COISAS DAS INDÚSTRIAS CRIATIVAS

#1 Esta experiência interativa da instalação gigante que a Joana Vasconcelos expõe no MOMA durante 2021 é esmagadora.  A obra, intitulada Valkyrie Mumbert, é a última de uma série de instalações que homenageiam mulheres inspiradoras e faz um tributo a Elizabeth "MumBet" Freeman, a primeira mulher escravizada a abrir um processo legal para a sua liberdade e a ganhá-lo em 1781, contribuindo para a abolição da escravatura no estado de Massachusetts. A experiência em realidade virtual permite visualizar a obra a partir de vários ângulos, em pormenor, e aceder a todos os conteúdos da exposição. Também é possível ver em vídeo a visita guiada com a curadora da exposição, Lisa Tung. É a primeira exposição a solo de Joana Vasconcelos nos EUA.
#2 Se há exposição que não vou perder no desconfinamento é a do artista chinês Ai Weiwei, na Cordoaria Nacional, a partir de 4 de junho. É um dos meus artistas-ativistas preferidos desde que vi a sua instalação "Bang" no pavilhão alemão na Bienal de Veneza de 2013. Na sua primeira exposição em Portugal, intitulada "Rapture", traz algumas das suas obras icónicas de grandes dimensões (gosto especialmente desta pela mensagem que transmite), mas também vai apresentar outras inéditas, que vai desenvolver com artesãos nacionais e utilizando materiais do nosso país. Foi considerado uma das 100 pessoas mais influentes nas artes em 2020 pela Art Review. Muito importante: se não sabem como se pronuncia Ai Weiwei, aprendam aqui.
 

_COISAS DOS MEDIA

#1 A última edição da revista Electra é dedicada à Fama e tem artigos bons, desde o que o filósofo italiano Mario Pezella assina sobre o processo de celebrização na sociedade do espectáculo, o do investigador australiano Barry King sobre as condições da celebridade e o da investigadora Rita Figueiras sobre comunicação política em tempos de conturbação social e tecnológica. 

#2 Há neste blogue Senhoras da nossa Idade textos irresistíveis, uma mistura de ordinary com um tempero aqui e ali extraordinário. Leiam.  No último texto (do dia 07 de março), há uma passagem deliciosa sobre um dos benefícios do confinamento (porque me revejo tanto, tanto nela):
"Há um certo alívio em não ter de ir a lado nenhum, não estar a perder nada, ninguém ficar chateado porque não aparecemos". Só não gosto de ser chamada de senhora de uma certa idade.  

#3 O Tiago Fortuna lançou o podcast Nuclear, dedicado à música, principalmente pop, e à energia cultural que nos traz. É muito bom de ouvir. 

#4 Há um poema que a Raquel Marinho partilhou na sua não-é-possível-não-seguirem conta de Instagram O Poema Ensina a Cair, que espero adequar-se à pandemia daqui a uns meses. É do Pedro Mexia (Vida Oculta, ed. Relógio D'Água): O Passado / O passado é apenas / mais uma rua / onde uma vez passámos.   
 

_COISAS DE CRIADORES: MARIANA DUARTE SANTOS 

Tem 25 anos e mais ou menos o mesmo número de participações em exposições nacionais e internacionais. Licenciou-se na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e concluiu os cursos de Desenho e Artes Plásticas no Ar.Co. Desde cedo que explora o grande formato a partir das técnicas de desenho e gravura e, recentemente, da pintura mural. 
  
Há uns dias terminaste um mural para a Galeria de Arte Urbana que pode ser visto na Rua Nova do Desterro, inspirado numa fotografia de Artur Pastor, um fotógrafo icónico de Lisboa. Como nasceu este projeto?
 
No final de 2019 comecei a explorar a arte mural. Desde então já fiz quatro. Este mural foi feito a partir de um convite da Galeria de Arte Urbana: o tema deveria relacionar-se com o local onde a parede se encontra, na Freguesia de Arroios. Fiz uma exploração do Arquivo Fotográfico de Lisboa de fotos antigas deste local e elaborei várias propostas: esta foi a escolhida. Sempre admirei o trabalho de Artur Pastor e fiquei contente de o poder homenagear de alguma forma com este mural.
 
A pintura de murais é a expressão artística mais recente de um percurso multifacetado. O que te fascina na tela de um mural?
 
A pintura mural foi uma sequência natural dos grandes formatos que nos últimos anos tenho vindo a explorar no desenho, na pintura e principalmente na gravura. Não conhecia muito trabalho nesta nova expressão artística quando tive a oportunidade de pintar o meu primeiro mural [Capinha, Fundão], mas desde aí tenho conhecido o trabalho de vários artistas nesta área que me fascinou por completo. 
 
Ilustraste poemas para um livro de Gerry Brennan e um livro infantil publicado na Austrália. O que retiraste dessas experiências?
 
O livro infantil publicado na Austrália foi a minha primeira experiência na ilustração quando estava ainda no 12ºano, na António Arroio. Foi um projeto de que gostei mas que me mostrou que não seria esta a área que teria mais interesse em seguir, exceto em raras exceções como o caso do livro de poesia "Light and Shade" que ilustrei com Gerry Brennan, pois foi um processo mais colaborativo no qual tive a liberdade de os desenhos serem mais interpretativos do que ilustrativos. Alguns desenhos foram inspirados nos poemas e alguns dos poemas foram inspirados nos desenhos.

A tua obra tem uma influência clara da literatura e do cinema. As linogravuras, inspiradas em programas como “the Twilight Zone”, são exemplo disso. Que outras fontes inspiram o teu trabalho e que mensagem queres passar com elas?
 
Interessa-me muito o conceito de "imagem perdida". Gosto de procurar imagens invulgares ou esquecidas sejam elas de filmes, séries de televisão sejam fotografias de família antigas. Imagens que, retiradas do seu contexto original, possam criar novas narrativas abertas, passar uma aura de mistério, resgatar memórias imaginárias ou dar uma nova vida a imagens por sua natureza descartadas e descartáveis como é, muitas vezes, o caso da televisão ou dos filmes B.
O teu atelier é em Lisboa, num dos espaços P’la Arte, mas já participaste em mais de 20 exposições, algumas fora do país. O que falta aos artistas para terem maior capacidade de internacionalizarem a sua obra?
 
Na minha opinião, tem muito a ver com a exploração de oportunidades on-line, de não ter medo da rejeição ou sentimento de inferioridade. As oportunidades expositivas, residências, projetos, festivais e encomendas estão espalhadas por todo o mundo e hoje em dia não há razão para nos restringirmos ao que se passa no nosso país. É sempre bom participar em oportunidades nacionais até pelo facto de as relações criadas serem mais fáceis de manter pela proximidade física, mas se existe uma oportunidade noutro país que tem tudo a ver com o nosso trabalho não devemos fazer da distância uma impossibilidade.
 
Um conselho ou palavra de aviso que dou, no entanto, é de não participar em "open calls" com "submission fees" [pagamentos de submissão] que são muito comuns nos Estados Unidos e raramente valem a pena em qualquer sentido.
qualquer trabalho.

Créditos da primeira fotografia: © Bruno Cunha | CML | DMC | 2021
@mariana95santos 
http://www.marianaduartesantos.com/
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