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LAH na QUINTA 2018
 
Como "fazer a vida" no batey ou recampesinação a lo cubano
Carlos Castro Gomes (UFSJ)​

Comentários: João Laguens (pós-doc PPGAS/MN/UFRJ)


21 de Junho, 14h
Sala Castro Faria
PPGAS | Museu Nacional | UFRJ
Quinta da Boa Vista, São Cristóvão

Em 2002, o governo cubano publicou um documento explicitando a urgência do encerramento das atividades de dezenas de usinas açucareiras, algo que provocou uma intensa alteração na dinâmica cotidiana das comunidades que dependiam do açúcar. Sem aquilo que lhes dava “vida”, elas caíram em um cenário de “deterioração”, no interior do qual apenas sujeitos “escapados” (astutos) conseguiam engendrar meios e relações para “fazer a vida”. Abandonando a imagem estanque do clássico nacional “guajiro” (“caipira” que vive da terra), ressurgiram, assim, as figuras dos “campesinos” e dos “trabalhadores do campo”, por décadas abafadas pela preponderância dos “operários do açúcar”, aqueles que, com heroísmo, alavancavam a economia socialista. Com dados de pesquisa etnográfica realizada entre 2012-2016, procurarei analisar a transformação dessa paisagem rural açucareira em um bateyda província de Matanzas, Cuba, dando atenção ao atual processo de recampesinação, ou seja, ao retorno de uma agricultura “particular” em uma área que, por anos, se sustentou com dinheiro, trabalhos e diferentes produtos “do Estado”, em sua maioria centralizados nas indústrias açucareiras locais. Descreverei as particularidades da dinâmica agrícola nativa, com foco nas criativas estratégias manipuladas por “campesinos”, “contratados” e “particulares” para manter circuitos de “favores” e “negócios” em suas atividades de plantar, colher e distribuir suas produções numa intrincada economia (socialista e sociolista) “criolla”. Temas como amizade, família, parentes “no estrangeiro”, associação, dolarização, invenção de objetos e migração compõem as tramas da recampesinação em meio ao desmantelamento açucareiro. Na esteira de estudos contemporâneos, minha apresentação pretende contribuir para o debate das categorias campo, rural e campesino (peasant) a partir de concepções nativas sobre a reconstituição e reconfiguração de um maleável mundo agrícola.